Aurélio Pimentel
- seu moleque safado!...
- ... Didi mata no peito, avança pela área, chuta no canto.....goooooooool !!!!
Foram as únicas palavras que ouvi e o gol do Didi foi na hora certa.
Tinha meus 15 anos, testosterona a mil, e numa tarde qualquer daquele longínquo ano de 1954 vi entrar na minha casa a Cecília, Cilinha, como sua mãe lhe chamava. Ela deveria ter seus 17 anos, já toda mulher. Seios postos, empinados – e nesse dia, tenho certeza, não usava nada mais sobre eles que o vestido de poá branco-azul. Foi um relâmpago! Fiquei – eu era precoce – fazendo conjecturas de amor eterno com a Cilinha. Era mais alta do que eu, morena, boca perfeita, lábios carnudos. As pernas, ah, as pernas, nem quero me lembrar... Hoje a turma a chamaria de um tezãozionho! Os cabelos negros e sedosos e a bunda empinada, calipígio que especialmente me assanhava.
Não sei o que ela foi fazer na minha casa. Nem em lembro quando foi embora, mas sei que foi um sofrimento desmedido não ter tido coragem de dizer-lhe nada.
Passaram-se os dias e, imagino que foi no mês de maio daquele ano, pois a discussão era quem seria o técnico da seleção brasileira, se o Rivelino ia jogar, se o Tostão se recuperaria da vista, enfim, era tempo de bola.
Aos domingos eu ia para a Casa Paroquial São José e ficava lá jogando pelada, ou jogando bola de gude com os garotos da vizinhança. Na parte da tarde havia a missa das cinco e era também um programa ficar vendo a saída dos fieis e, claro, das meninas. Não é que me surge a minha Cilinha. É isso mesmo!. Já era a minha Cilinha, a que freqüentava os meus sonhos. Freqüentava sonhos lúgrubes e desmedidamente assanhados, que me motivaram inúmeras investidas solitárias e à desbragadas imaginações (não sei se vocês me entendem?...)
Vamos situar a época. Foi em 1954. O escritor Alvin Toffle escreveu o livro a 3ª Onda, onde relatra as ondas sucedssivas da civilização e Campo Grande estava definitivamente na primeira onda. Era uma cidade pequena, onde o progresso estava começando a chegar, ainda havia telefone de manivela e o som de rádio que melhor chegava era o da PRY7, onde o forte eram as guarânias paraguaias. As rádios de longe, a MaryinK Veiga e a Rádio Nacional, chegavam acompanhada dos inesquecíveis chiados, que teimavam em ficar mais fortes nas horas indesejadas, na hora que a Ângela Maria estava cantando ou na hora que o nosso time estava no ataque. Nos domingos, havia o footing na rua principal, a 14 de Julho, uma das poucas asfaltadas, onde as meninas desfilavam, para cima e para baixo, até o relógio da praça central, e nós, a garotada e os mais marmanjos também, ficávamos na paquera e nas conquistas. Ali havia duas correntes de desfile. A das meninas consideradas “de família”, que passeavam entre a Don Aquino e a Av Afonso Pena e com elas um certo recato nas investidas. E havia as meninas que desfilavam da Dom Aquino até a Rua Maria Antonio Coelho e, ali, as cantadas eram mais abertas e podia resultar nuns amassos sem maiores compromissos
Pois foi nesse ambiente, exatamente na divisão dos dois mundos, os das meninas “de família” e as outras, bem no início da Rua Dom Aquino, que eu vi, pela segunda vez, a Cilinha. Minha cabeça não era decididamente boa. A única coisa que me ocorreu foi a instantânea dúvida de saber de que lado a Cilinha estava desfilando...Pior, torci que a sua área fosse a que voltava para trás, o que tornaria minha empreitada – supunha eu – menos árdua. A Cilinha me olhou de soslaio, sem nenhum interesse,e seguiu em direção ao relógio e a minha angústia em direção ao infinito.
Mas eu tinha que dar um jeito e procurei encontrar uma oportunidade. E ela veio. Era o dia 13, um sábado e o Jogo Brasil x México seria na terça-feira seguinte. O assunto não era outro. Quem ganha? O Bauer joga?, O Didi é o máximo! Eu estava seguindo pela 14 de julho e, ai,ai,ai...ui, ui ui, dei frente para ela. Petrefiquei. Ela abriu um sorriso, desconjuntei. Não sabia o que fazer e meus sentidos ficaram absolutamente parvos.
- Oi, como vai? Estive na sua casa e você nem falou comigo.
- Eu, Eu...
Gaguejei, tossi, não consegui articular.
- Como é seu nome? O meu é Cecília, Cilinha.
Disse o meu, entre os lábios, e arrisquei uma frase qualquer que não recordo. Foi um instante único, que me arrepiou e me deixou mais lerdo do que o normal. Ficamos ali uns poucos instantes e, meio de sopetão, dei meia-volta e já ia me retirando perturbado, quando...
- Quando agente pode se ver?
Era demais. Enchi-me de coragem, retornei nos calcanhares e lhe disse que seria quando ela quisesse, onde quisesse, como quisesse.
Sem demonstrar nenhuma surpresa ou embaraço a Cilinnha me pôs no paraíso.
- Terça tem jogo do Brasil, meu pai vai ficar grudado no radinho escutando o jogo na casa ao lado (era uma vila), do meu tio e você pode ir lá em casa. A mamãe vai à igreja para anovena e eu estou sozinha.
Vou pular toda a narrativa do imenso tempo que durou desse momento até o instante que entrei, pelas portas do fundo, na casa da Cilinha. Como disse antes, ela era mais velha do que eu uns três anos, e isso, com certeza era a diferença que fez a desenvoltura dela não nos fazer perder tempo. Foi uma atracação imediata e visceral, diga-se sem nenhuma iniciativa minha. Foi ela a culpada! Também não vou entrar em pormenores desse embate, pois, na verdade, nem sei qual foi a seqüência. Foi... foi.. sei lá...
De repente escutamos uns passos que se aproximavam pela calçadinha que circulava a casa de madeira onde ela morava. As frestas entre as tábuas, colocadas umas ao lado das outras, deixavam passar os sons arranhados da narrativa do jogo e pedaços da imagem que resultou na fatídica frase pronunciada pela Nora – é meu pai! E era. Dirigia-se exatamente para a porta dos fundos, por onde eu entrara. Lá fora o rádio do tio berrava, entre chiados, os lances da partida: Bauer para Baltazar, que driblar um gringo...... Eu seminu, ela quase nua. Didi passa por outro mexicano e já está na entrada da área... Os passos se acercando e eu de nervoso não conseguia recompor todas as peças de roupa que o frio me obrigava usar. A calça não acertava com minhas pernas e fiz mais barulho do que devia e isso foi decisivo. O pai da Nora desconfiou de alguma coisa – hoje eu acho que ele era desconfiado porque conhecia a menina – e apressou os passos vindo em direção ao quarto onde estávamos. Eu não conhecia a casa e o que fiz foi juntar minhas roupas ainda não vestidas e me dirigir para uma porta no sentido contrário dos passos que chegavam. Mas não fui rápido bastante e o pai me viu.
- seu moleque safado...
Didi mata no peito, avança pela área, chuta no canto.....goooooooool !!!!
Foi o milagre! O homem deu meia-volta e correu em direção a porta que entrara e aos pulos gritava Gol! Gol! Gol do Brasil!.
Nunca mais vi a Cilinha.
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