
Aurélio Pimentel
Abril-2006
Sabe aquelas mangas grandalhonas, a manga-espada? Ela, normalmente, tem a cor verde, mesmo quando está madura; sua forma é alongada, achatada dos lados e quando está no ponto é muito doce. Deixa aqueles fiapos, que ficam entre os dentes, que nos obriga a perder a educação para cutucá-los boca a dentro.
Pois é! Ali em Paquetá, naquela época, tinha muita mangueira e, em especial, uma enorme de manga-espada num terreno a beira-mar, próximo da Pedra da Moreninha. Dava unas mangas, quando maduras, macias, enormes, pesadas e, incrivelmente doces.
A turma chegava aos fins-de-semana e, no início, cada um pro seu lado. Os filhos do seu Jonas, que moravam na Praia Grossa, logo estavam em casa, pois não distava muito do atracadouro e logo o Carlos e o Joninhas pegavam as bicicletas e partiam para se juntar com os demais. Os demais eram muitos. Tinha a turma do Irineu, a do Nininho e tantas outras. Na verdade esta história se justifica só por causa de um da turma.
Nos fins dos anos 40 Paquetá era parte do Estado da Guanabara e só em 1975 tornou-se bairro pertencente à cidade do Rio de Janeiro. Naquela época era muito difícil dar a volta completa na Ilha e uma aventura sair da Praia dos Tamoios, passar pela das Gaivotas, a do Imbiúca e seguir por todas as outras até a Praia da Moreninha. Depois, no final do dia voltar pelo outro lado, passando pela Praia São Roque, a Praia do Buraco e chegar novamente na Praia dos Tamoios. Em muitos lugares a bicicleta tinha que ir às costas pelas trilhas, especialmente no canto da Praia José Bonifácio. De alguns lugares dava para ver a Ilha do Governador e da Praia da Moreninha via-se facilmente a Ilha de Brocoió, lugar de descanso dos Governadores. A Ilha é pequenina, tem mais ou menos 1,2 Km² e seu perímetro não passa de 8 Km Sempre foi, como hoje, de poucos residentes fixos e a turma dos fins-de-semana era formada por filhos de funcionários públicos, militares, executivos, a classe média da época, que curtia os feriados, depois de balançar mais de uma hora nas barcas que saiam da Praça XV, do Rio.
Mas muitos moravam e estudavam em Paquetá. O Nininho era um deles. Estudava na Escola Municipal Pedro Bruno, bom aluno, aproveitava, mesmo sem saber, o prédio que foi sede da Fazenda São Roque, uma estrutura exemplar de arquitetura Neo-Clássica. Mas podia ser encontrado embaixo da Maria Gorda, a Baobá, ali na Praia dos Tamoios, que, naquela época, já tinha mais de 7 metros de diâmetro, frondosa e muito bonita.
Não havia hora marcada, mas de repente estavam quase todos na Praia da Moreninha, sempre a mais procurada. A praia tinha uma área de areia ampla, água muito limpa e, além de tudo, tinha a Pedra da Moreninha, trampolim para mergulhos e trapalhadas.
Não dá para saber como, mas num certo dia alguém inventou uma disputa que consistia em lançar, o mais longe possível, uma manga-espada que rolara da mangueira até perto da Pedra. A manga-espada, como se sabe tem um tamanho grande, quando verde é dura como pedra e é pesada. Joga pra lá, joga pra cá, a manga se partia e logo surgia outra para fazer vez de peso para ser lançado. O mais difícil era a substituição da manga destruída que deveria ter a mesma forma, o peso e a consistência da anterior. Aí surgiu, por insistência do Nininho, a primeira regra: seriam colhidas algumas mangas-espada, antes do início da disputa, e elas deveriam ter a semelhança que permitisse uma disputa igual; num instante as demais regras: a linha de lançamento, o local que seria considerado como do impacto para a medição, o jeito do lançamento, que deveria ser só na força, sem corrida ou giro, enfim, os critérios do campeonato.
- Muito bem, o Nininho venceu.
Não esquecer que entre as regras foi definido um medímetro, que se constituía de uma vara marcada de palmo em palmo, para comparar os lançamentos.
- O Nininho venceu com a distância de 4 varas e dois traços.
- Dois traços, não! Replicou o Nininho. Foram dois traços e meio.
- Dois traços!
- Dois e meio! Quer saber de uma coisa, não disputo mais, não estou aqui pra ser tungado. Se for pra competir, que seja uma disputa justa!
- Nininho, por favor, se acalme. Isto é uma brincadeira. Esta bem, está bem, diz o Irineu, conciliador, foram 4 varas e dois traços e meio. Só não entendo porque a briga, o segundo lugar só jogou a distância de 3 varas!
Ali, naquele dia, ficou claro que o Nininho tinha uma visão própria sobre medidas, onde 4 varas e dois traços são absolutamente diferentes de 4 varas e dois traços e meio.
O Nininho deveria ter uns 13 anos. Era troncudinho e gostava de fazer ginástica, tinha mania, quando vinha do Rio, de saltar da barca antes da atracação e nadar até a praia. Gostava dos cabelos cortados à escovinha e usava um macacão de alças cruzadas e abotoadas no peito. Alguma coisa o fazia diferente da turma e o diminutivo no nome, Nininho, só podia ser um jeito carinhoso da família, pois a estatura, para a idade, não justificava o apelido.
- Nininho venceu novamente! Olha já melhorou 5 traços a mais que da última vez!
E assim, de traço em traço, ficou uma disputa sem concorrência e o campeonato acabou antes das mangas acabarem no pé de manga-espada.
Já estamos em 1955. O Nininho, agora é Tenente do Exército Brasileiro. Não podia ter sido outro o seu destino na corporação. Era atleta. Atleta de lançamento de peso e campeão na modalidade. Participava de lançamento de qualquer coisa, menos manga-espada. Mas sua especialidade ficou sendo o lançamento de granadas, nos campeonatos de pentatlo militar. Sempre campeão. Foi campeão, pelo Brasil, em disputas internacionais diversas e recorde mundial em Bruxelas, em 1958, alcançando 195,7 pontos.
- the winner is the Lieutenant Nilo Ferreira with hundred and ninety five points and seven tenth
- No! No! My record is a hundred and ninety five points and eight tenth, no seven tenth…
O Nininho não mudou!
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