A primeira coisa que me surpreendeu foi saber que ela não fazia falta. Afinal, quase 68 anos convivendo no mesmo espaço, estando no meu ambiente em todos os acontecimentos da minha vida. Outra particularidade: nunca me deu trabalho. Quieta, fazendo lá o seu metier, que, como agora soube, sem importância. Quando eu fazia alguma observação das coisas que tive na vida, não me recordo de tê-la incluído; foi sempre alguma coisa, como se diz, à esquerda, melhor, à direita, porque era lá que ficava. De repente, sem qualquer aviso, sem nenhum julgamento mais profundo e conclusivo, somente por suposições e exclusão de hipóteses, foi julgada culpada por uma dorzinha no meu abdômen. Examina isso, examina aquilo e eles, os doutos, diziam: olha pode ser ela e, se for, é fogo! A única evidência era uma pedrinha insignificante. Mas será que era a culpada? Ainda não sabemos. Mas foi tomada a decisão do seu sacrifício com base em dados não conclusivos. Paciência, agora já era. É por isso que sou contra a pena de morte. No caso dela, por exemplo, se era inocente, ter sido sacrificada e excluída da minha vida, unicamente, por ser uma probabilidade e, especificamente, por ser considerada quase inútil. Que final mais inglório! Mais que isso, que vida inglória, ter sido inútil por tantos anos. Acordando da anestesia perguntei ao médico que me mostrava a minha ex-vesícula, aquela coisa pequena, meio parecida com balão de festa, de cor preta e murcha:
- Doutor, o que vai ser feito dela?
E ele com desdém:
- Vai pro aterro sanitário.
Realmente, êta organzinho desnecessário!
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