O IMPLACÁVEL É O TEMPO!


A mulher estava sentada na sala de espera para a primeira consulta com um novo dentista. Atitude beirando ao medo, folheando as revistas que nada lhe diziam, com o olhar vagando no ambiente asséptico do consultório, quando deparou com o diploma que estava dependurado na parede. Estava escrito o nome do dentista, Dr. Camilo Schiavo, a Escola onde formara e a data. Cutucou um canto da memória e, de repente, recordou-se de um moreno alto, que tinha esse mesmo nome. Era da sua classe do colegial, uns 40 anos atrás. Lembrava-se perfeitamente dos calores que sentira nos eventuais contados dos bons dias e boas tardes, pois, o tal do Schiavo era um boa pinta e ela e todas as meninas da turma só tinham olhos para ele. Fora o seu amor enrustido; sem declarações, mas com as trocas de olhares e risinhos de canto de boca, que, lamentavelmente, não passaram das lembranças e penares que lhe consumiram algum tempo. Depois, esqueceu.

Divagava ainda, quando foi chamada para o consultório do Dr. Schiavo. Boa tarde, olá, tudo bem? O quê lhe traz ao meu consultório? Ela ia respondendo no automático e, de certa forma, conformada, pois agora, o seu ex-querido Schiavo era um velho grisalho, só com alguns penachos de cabelo, quase calvo, com a pele enrugada, barriga proeminente, portanto e ainda bem, fora somente lembranças, bem esquecidas.

Sentou na cadeira do dentista, que ia começar procedimentos, quando resolveu averiguar um pouco mais.

- Dr. Schiavo o senhor estudou no Colégio Sants Moritz? 

- Sim. Acho que o último ano foi em 1959. Por quê?
.
- Uma bela coincidência... Eu também, disse ela.  

E completou:
.
- o senhor era da minha classe...

Foi então que o dentista velho, aliás, mais que isso, o cretino, o careca, o imbecil bolo fofo, sem mudar o tom de voz ou se sentir surpreso, diz:

- que matéria a senhora lecionava?...



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