MEU ESPELHO VENEZIANO

De: Max Schlobach

Sempre me senti atraído por antiguidades. Talvez esse gosto eu tenho herdado de meu falecido avô, que era assíduo frequentador de leilões de artes. Quando faleceu, deixou um bom acervo, distribuído por todos os seus filhos. Até hoje, possuo em minha casa algumas peças, que recebi de meus pais, oriundas da coleção de meu avô.

Hoje, quando passo por um antiquário, não consigo deixar de entrar, para apreciar as peças que lá são exibidas. Ultimamente, passei a me interessar especialmente por espelhos venezianos, porque sempre os achei charmosos e ainda porque minha mulher achava que um espelho daqueles cairia muito bem em nossa casa, num espaço sobre uma arca antiga.

Obtive na internet a informação de que a origem desses espelhos se deu na Veneza do século XIV, quando desenvolveram a técnica do espelho de superfície lisa e fundo metálico, que até hoje utilizamos.

O valor artístico dos espelhos venezianos é grande, tanto que um dos seus mais belos exemplares está exposto no Museu do Louvre.

O que quero contar a vocês é que, passando por um antiquário, vi uma bela peça: um espelho veneziano bastante bonito - e me encorajei a pedir seu preço. Levei um susto, pois ultrapassava muito o que eu esperava e o que podia pagar. Mas, o comerciante, excelente vendedor, fez um abatimento substancial no preço e disse que eu poderia pagar em até seis vezes. Mesma assim, a prestação ficou cara demais.

Aí ele veio com a história de que a peça estava na loja em consignação e acrescentou que iria telefonar para a proprietária, para tentar uma nova redução. Acho que foi um telefonema simulado. Simulado ou não, o fato é que me fez uma proposta tentadora. Em resumo: fechei negócio, pagando uma pequena parte à vista e o resto com sete cheques pré-datados, porque, pensei, iria dar uma baita alegria em minha mulher.

A peça foi bem embalada e a transportei para o estacionamento onde estava meu carro, para colocá-la na mala, o que fiz com o maior cuidado.
Dirigia alegre e faceiro de volta para casa, ansioso para chegar logo e dar o presente para minha mulher, que certamente seria muito apreciado.

Quando eu pensava nisso, aconteceu o inesperado: Na Avenida Presidente Vargas, parei o carro num semáforo e o que vinha por trás não parou a tempo. Recebi uma batida bem no centro da mala... e logo pensei no pior. De fato, quando abri a mala, tive vontade de chorar. O espelho estava em pedaços, irrecuperável.

Não fiquei preocupado com a batida em si, porque o carro estava no seguro. Mas o espelho...

O fato real (e triste) é que tenho sete cheques pré-datados, que devo honrar.

Bem, vocês naturalmente hão de me perguntar como minha mulher recebeu a notícia. E eu digo para vocês que ela até hoje não soube do acontecido. Achei melhor nada contar a ela...
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