MINHA VIAGEM À CUBA


Isso aconteceu em 1985, um ano antes da minha
mudança para Belém, onde permaneci por 3 anos e meio. De certa forma foi um
"agrado" à minha mulher, que estava chateada com a futura mudança
para local tão distante do Rio (3 mil km) e, então, muito pobre. A mudança foi imposta
por mim, já que pela primeira vez (e única) na vida eu tive a oportunidade de
participar do nascedouro de uma grande empresa e queria ter a chance de
acompanhar, como Superintendente de Controle, o início da construção civil e o
start-up da fase operacional desse projeto orçado em US$ 1,8 bi (a US$ de 85) e
realizado por US$ 1.2 bi (a US$ corrente).
Resolvi fazer uma viagem a Vararedo - uma praia
quase maravilhosa- água esverdeada, areia branca e fina, mas com poucas e
baixas ondas. Varadero é
uma pequena cidade a cerca de 100 - 130 kms de Havana que era o local das
grandes mansões dos milionários americanos que dominavam a "economia"
(cassinos, prostituição, banana, açúcar, fumo) cubana até a derrocada da
ditadura do Fulgêncio Batista, em dez/58. A revolução destinou as casas para retiro de férias dos dirigentes do partido e para uns poucos trabalhadores,
provavelmente "yes-man" dos chefes de fábrica, considerados
operários-padrão. Muito depois, com sede de US$, começaram a construir hotéis
para atrair os europeus que não concordavam com o bloqueio comercial dos EUA.
Lá minha experiência foi frustrante. Um rapaz que me servia drinks na praia
sentiu tanta confiança em mim e na Ana que um dia teve a coragem (observe que
se eu fosse comunista, poderia denunciá-lo a gerência do hotel, e ele seria
preso) de me perguntar se eu poderia comprar um tênis para a filhinha dele que
era vendido na "tienda" do hotel (local para venda de importados com
acesso negado aos nativos - provavelmente não aos nativos dirigentes).
Infelizmente, não havia um número perto do de sua filha.
De Varadero fui a Ciunfuegos, acho que cerca de
150 kms de Varadero. Camilo Ciunfuegos Gorriarán foi o terceiro mais importante líder da
Revolução, morto antes da vitória final - logo baixo de Fidel e de Che. Lá
fiquei num Hotel, afastado do centro, que tinha a maior piscina que eu já tinha
visto - talvez uns 100 m de largura.
Col. Renato Nissen
O Jabor na sua crônica de hoje no "The
Globe" expõe suas decepções na sua primeira e única viagem à Cuba. Acho
que ele só foi à Havana e Varadero.
A leitura da mesma me motivou a contar sobre a
minha, também, primeira e única viagem à Cuba. O texto ficou um pouco
longo, mas com meu extremado senso de auto-crítica acho que mesmo assim ficou
bom. Espero que você o desfrute, lendo-o linha a linha e não transversalmente (com
a sua trombose você tem todo o tempo do mundo).


Isso aconteceu em 1985, um ano antes da minha
mudança para Belém, onde permaneci por 3 anos e meio. De certa forma foi um
"agrado" à minha mulher, que estava chateada com a futura mudança
para local tão distante do Rio (3 mil km) e, então, muito pobre. A mudança foi imposta
por mim, já que pela primeira vez (e única) na vida eu tive a oportunidade de
participar do nascedouro de uma grande empresa e queria ter a chance de
acompanhar, como Superintendente de Controle, o início da construção civil e o
start-up da fase operacional desse projeto orçado em US$ 1,8 bi (a US$ de 85) e
realizado por US$ 1.2 bi (a US$ corrente).
A viagem constou de 3 dias no Panamá, 12 dias no
México (metade na capital e metade em Cancún), e 15 dias em Cuba.
A minha primeira decepção foi quanto aos preços. A ilha já
estava à míngua, os USA proibiam a visita de seus cidadãos, a maioria dos
turistas era de alemães, franceses e italianos, e mesmo assim, eles mantinham o
peso valorizado (1US$=1 peso) para o turista, quando na rua o povo queria comprar
os dólares do turista por de 10 a 20 pesos (transação ilegal punida com prisão,
pelo menos do cubano).
A minha segunda grande decepção foi a ineficiência no uso dos
recursos humanos. Esta era uma das grandes balelas dos regimes comunistas -
empregos para todos. No hotel que fiquei, ex- Hilton, havia cerca de 15 garçons
para cada mesa, a maioria encostado nas paredes batendo papo, e, basicamente,
nenhum prestando atenção aos clientes.
A minha terceira grande decepção foi
a que o Jabor teve - o estado de conservação dos prédios. Era deplorável,
inclusive nas áreas mais importantes de Havana - o Malecon (a orla da praia),
nos centros históricos, nos hotéis e nos prédios públicos de visitação (museus,
parques, teatros). Por que não destinar a mão-de-obra ociosa para conservação
dos prédios? O sistema de transporte público em Havana era uma
merda - poucos ônibus e todos lotados.
Na época a preocupação com a segurança já era
enorme - na zona turística havia um guarda em cada 2/3 quadras, todos munidos
de walk-talk. Isso só passamos a ver nas grandes cidades do Brasil nos últimos
5/7 anos.
Uma coisa elogiável - não se via crianças nas ruas, exceto nos
fins de semana, ou seja, todas deviam estar nas escolas.
Uma segunda coisa elogiável -
a maioria dos cubanos era alta e forte e com todos os dentes e em boas
condições.
Algumas "aventuras":
Na época, ao sair do hotel o turista, durante cerca
de 1km de sua caminhada para um destino qualquer, era acompanhado por vários
jovens com oferta de troca de dólares por peso, em taxas variando de 10 a 20.
Numa dessas abordagens cedi para agradar o rapaz e aceitei trocar cerca de 20
US$. Mas condicionei fazer a mesma sentado num banco de uma praça próxima, já
que ele me transmitia insegurança ao olhar para todos os lados, todo tempo. Logo após a troca, um suposto espião do governo
abordou o rapaz que, apesar de branco, deu para notar que ficou pálido. Esperei
por cerca de 2 minutos a discussão entre os dois - que não entendi nada, pois
apesar de civilizada era muito rápida. Quando eu e Ana nos levantamos para
seguir nosso destino o pobre do rapaz nos pediu encarecidamente que não o
deixássemos sozinho. Neste momento me dirigi ao "espião" e disse que
tinha contratado o rapaz para me mostrar as belezas culturais de Havana. Ele
foi liberado apesar da cara de desconfiança do "espião".
Com os pesos adquiridos fiquei sabendo que turista
só podia pagar em US$ em estabelecimentos oficiais - ou seja, quase tudo. Todos
os restaurantes, bares, shows tinham que ser pagos em US$. Logo, os pesos não
tinham serventia.
Resolvi fazer uma viagem a Vararedo - uma praia
quase maravilhosa- água esverdeada, areia branca e fina, mas com poucas e
baixas ondas. Varadero é
uma pequena cidade a cerca de 100 - 130 kms de Havana que era o local das
grandes mansões dos milionários americanos que dominavam a "economia"
(cassinos, prostituição, banana, açúcar, fumo) cubana até a derrocada da
ditadura do Fulgêncio Batista, em dez/58. A revolução destinou as casas para retiro de férias dos dirigentes do partido e para uns poucos trabalhadores,
provavelmente "yes-man" dos chefes de fábrica, considerados
operários-padrão. Muito depois, com sede de US$, começaram a construir hotéis
para atrair os europeus que não concordavam com o bloqueio comercial dos EUA.
Lá minha experiência foi frustrante. Um rapaz que me servia drinks na praia
sentiu tanta confiança em mim e na Ana que um dia teve a coragem (observe que
se eu fosse comunista, poderia denunciá-lo a gerência do hotel, e ele seria
preso) de me perguntar se eu poderia comprar um tênis para a filhinha dele que
era vendido na "tienda" do hotel (local para venda de importados com
acesso negado aos nativos - provavelmente não aos nativos dirigentes).
Infelizmente, não havia um número perto do de sua filha.
Acho interessante também descrever como cheguei a
Varadero. Fui à rodoviária e comprei as passagens pagando em peso, preço
irrelevante. O ônibus quando deixou Havana estava com metade da lotação - todos
com cara de muito pobres. À medida que ele se afastava de Havana, parava
de 10 em 10 km e entravam pessoas com pequenos animais - galinhas, patos e
porquinhos. Numa determinada cidade ele parou e fiquei sabendo que teríamos que
pegar outro ônibus para seguir viagem. Uma viagem que esperava fazer em 1h30m,
já havia passado de 3hs. Perdi
o "saco" e resolvi contratar um táxi local (na época, táxis em Havana
eram todos da Fiat (aqueles carrinhos mais merdas, o 147) e todos pertencentes
ao Governo; mas fora da capital eram particulares (não sei se aprovados pelo
Governo) e quase todos americanos da década de 40. Ele me levou a Varadero
cobrando em pesos e fiquei tão feliz que dei todos meus pesos para ele (50%
acima do que pediu).
De Varadero fui a Ciunfuegos, acho que cerca de
150 kms de Varadero. Camilo Ciunfuegos Gorriarán foi o terceiro mais importante líder da
Revolução, morto antes da vitória final - logo baixo de Fidel e de Che. Lá
fiquei num Hotel, afastado do centro, que tinha a maior piscina que eu já tinha
visto - talvez uns 100 m de largura.
Na época os russos construíam uma usina atômica
para geração de eletricidade. Uma determinada manhã estava no ponto do ônibus do
hotel para me dirigir para o centro. Perto de mim algumas pessoas muito
brancas, que logo deduzi serem russas. Eu observava operários cubanos, cerca de
10, construindo alguns degraus de concreto sobre um gramado verde para
facilitar o acesso dos hóspedes do ponto de ônibus para a sede do hotel. Três
deles trabalhavam e 7 observavam (como é muito comum, até hoje, aqui no Brasil). Puxei conversa com um dos russos sobre a usina e o
que ele achava dos trabalhadores cubanos. Ele me olhou com desdém e disse
"é como aquilo ali" - apontando para a construção dos degraus.
Cuba foi colônia da Espanha até 1894 ou 1898; os EUA
forjaram um conflito e deram a "independência" ao país. Desde então o
país foi entregue aos interesses dos capitalistas americanos, que mantiveram
ditaduras locais. Em
dez/58, eles imaginaram que os novos revolucionários com o tempo manteriam o
"status-quo" e se tornariam os novos ditadores protegendo os
interesses dos capitalistas. Isso não ocorreu. A Revolução fez o dever de
casa básico - educou a população, reduziu o índice de mortalidade dos jovens ao
mínimo e manteve o crescimento populacional em níveis aceitáveis. Mas um
povo precisa de muito mais do que isso - ou seja, precisa ter o direito de ir e
vir para qualquer lugar e desfrutar a maior parte possível de todo o desenvolvimento
que a humanidade criar. PRECISA TER O DIREITO DE EXPRESSAR SUA
DESAPROVAÇÃO AO GOVERNO VIGENTE.
Ou seja, a Revolução nos primeiros 20 anos foi
benéfica e nos 30 seguintes tem sido um atraso. É muito, muito triste que
nossos governantes desde 2002, não se apercebam disso.
(Abaixo, você acessa a área de comentários)





Um comentário:
O que eu acho curioso é que nenhum intelectual seja de onde for, vê que uma ditadura, seja ela de Direita ou Esquerda não é nada mais do que isso, uma DITADURA em caixa alta.
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