cCol. Renato Nissen
Esta é uma história do pós-segunda-guerra. Ela se passa em Frankfurt-am-Main na região central da Alemanha.
Um alemão que havia vivido no sul do Brasil, voltara em 1937 com sua mulher e sua filha, para ajudar a construir a nova grande Alemanha, anunciada pela maciça propaganda hitlerista, que prometia uma boa-vida para todos aqueles alemães que haviam emigrado durante os tempos difíceis do pós-primeira-guerra.
Finda a guerra em 1949, ele procurou o consulado brasileiro em Frankfurt com a intenção de retornar ao Brasil o mais rápido possível, porque “a Alemanha tinha acabado para mim”. E relata ao cônsul sua história:
Alguns meses após sua chegada com a família, a guerra rebentou e ele foi convocado e partiu para a frente de batalha. A mulher e a filha ficaram trabalhando na produção militar e morando na casa que receberam do governo. Acabada a guerra ele voltou, miraculosamente, sem qualquer ferimento mais grave.
Ele demorou cerca de 60 dias para voltar à cidade onde morava, perto de Frankfurt. Logo saiu à procura da sua rua, da sua casa. Foi difícil encontrar a rua, apenas ruínas, tijolos, pedras, metais, pedaços de janela e porta. Procurou alguém que pudesse dar notícias de sua mulher e sua filha. Não viu ninguém. Caminhou bastante até chegar a uma padaria. As paredes dessa padaria eram usadas para se afixar mensagens para parentes e amigos por aqueles que deixavam e chegavam à cidade. Ele consultou tudo, não encontrou nada. Alguém o mandou a uma igreja, onde também existiam listas. De fato, lá lhe disseram que sua filha estava num hospital numa outra cidade perto de Frankfurt.
Ele partiu depressa. Quando deu com a porta do hospital ficou muito assustado porque só viu aleijados por toda parte. Lá lhe informaram que havia uma pessoa com as características por ele descritas, que usualmente ficava sentada sozinha num banco no fundo do corredor X. Ela lhe reconheceu de imediato. E eles choraram muito. Minutos depois ele percebeu que ela perdera uma perna. Então, a filha narrou o bombardeio aéreo que tinha destruído a casa da família, matado a mãe e lhe tirado a perna. Ali mesmo, naquele momento, ele resolveu dedicar o resto da sua vida a proporcionar o máximo de felicidade à filha.
Ele mudou-se de cidade, alugou uma casa, instalou a filha no quarto que dava de frente para a rua, ficou no acanhado quarto dos fundos e passou a trabalhar como louco. Mas nada tornava a filha feliz. Consultado um médico ele ouviu o quase impossível: a filha teria outra vida se conseguisse uma perna artificial, ortopédica, inexistente no mercado alemão e caríssima, onde houvesse.
Ele entrou no mercado negro, onde os riscos eram grandes, mas os lucros enormes nas transações com meias, cigarros, dinheiro, batata, bicicleta, objetos roubados, cartão de racionamento, novos remédios americanos, etc. E começou a ganhar muito dinheiro chegando até a contratar três ajudantes. E aí, um dia, soube que, se pagasse bem, haveria a possibilidade de arrumar, no hospital militar estrangeiro, pelo mercado negro, a perna artificial desejada.
Comprada a perna, a filha mudou radicalmente, passando a sorrir, passear pelo bairro, e até arrumando emprego numa farmácia.
Certo dia, ela conheceu um rapaz, em conversa de balcão de farmácia, e começaram a namorar. O rapaz vinha ver a filha todos os dias, no fim da tarde, até parecia que um havia sido feito para o outro. Eles resolveram casar e o pai bancou a festinha e fez obras no quarto da frente para melhor abrigar a filha e o genro.
Na manhã do dia seguinte à noite do casamento, a filha acordou, procurou o marido, não viu ninguém, chamou pelo pai, gritou, gritou mais que chorando: o marido se fora e levara a perna artificial.
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