SONHO DESFEITO

CIEPS, UM SONHO QUE SE DESFAZ
Col. Acrísio

Há cerca de um mês, o jornal O Globo publicou uma série de reportagens sobre os Cieps. Acompanhei atentamente as matérias publicadas e pude constatar com enorme decepção que, decorridos 21 anos da inauguração da primeira unidade, o projeto, hoje, é apenas um sonho, idealizado por alguns educadores – dentre os quais o saudoso Darcy Ribeiro - que imaginaram ousar, e transformar a utopia em realidade. Não se tratava somente de alojar crianças e adolescentes em prédios bonitos e modernos, nem possibilitar que os alunos voltassem para suas casas bem alimentados e de banho tomado. Tão relevante e o que faltou, com certeza, foi a vontade política de valorização efetiva dos professores e demais funcionários, empenhados no projeto revolucionário de seus idealizadores.
Não pretendo trazer ao cenário nem analisar, aqui, aspectos políticos, avaliando as administrações do ex-Governador Leonel Brizola. Não é o caso. Quero me concentrar apenas no projeto dos Cieps, que sempre considerei fantástico, com filosofia irretocável. Contudo, quando verifico que, de um total de 515 Cieps construídos em todo o estado, uma boa parte deles encontra-se destruída ou em péssimo estado de conservação, fico muito triste. Alguns foram saqueados e invadidos, sem qualquer providência efetiva das autoridades. Poucos ainda funcionam normalmente, dentro da filosofia original. Isso me provoca um misto de desânimo e revolta, pois o investimento foi muito grande e vê-se que dentro de pouco tempo nada mais restará. Muitos falam nos custos envolvidos, alegando que horário integral é luxo e argüindo o dispêndio elevado de um estudante em horário integral. È desculpa mal costurada, quando se nota que tanto dinheiro público “vai para o ralo”, com projetos inúteis, sem qualquer interesse público. O que existe, na realidade, é a total insensibilidade dos nossos homens públicos, com vistas à formação de nossa juventude. E a causa maior, pode-se afirmar, é a descontinuidade administrativa, não admitindo os nossos políticos, como de sabença, dar seqüência a projetos que não lhes renderão votos, eis que idealizados por outros.
Infelizmente, talvez seja tarde demais para retomar o projeto, na forma como foi concebido. O que vislumbramos hoje é nossa juventude exposta à criminalidade, ao consumo e comércio de drogas, quando poderiam estar estudando numa unidade do Ciep, recebendo uma boa formação, para se tornarem, mais tarde, pessoas úteis à sociedade.

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