
junho-2006
Com implícita discriminação racial
Eu e o Max aguardávamos na sala do Juiz o início da audiência. Tratava-se de uma questão movida pelo Banco Real a respeito de um débito que eu fora avalista. As circunstâncias diziam que nossas chances eram nenhuma. Nada me restaria, se não, pagar a dívida (uma nota preta!) porque o devedor principal não tinha recursos.
Na sala de audiência eu me comportava tal qual o condenado prestes ao cadafalso. Cabisbaixo, angustiado e, sei lá, com um monte de sentimentos impublicáveis a respeito do meu ex-amigo. Nessa hora, entra o advogado do Banco Real, cumprimentos de praxe e ele, com ar um tanto desiludido, diz:
- Puxa! Vocês são mesmo de sorte!
- ????
E o advogado enfatiza:
- O réu pagou a dívida.
O Max e eu nos entreolhamos e comentei baixinho:
- O doutor deve estar em audiência errada!...
Mas não estava. O réu, que eu sabia ser incapaz de quitar a dívida, estava em processo de separação judicial e tinha com a ex-mulher um único imóvel que precisava ser vendido para que fosse feita a partilha. Ela conseguiu um empréstimo e quitou a dívida para viabilizar a venda do bem.
Ótimo, maravilha! Mas, acontece que lá em casa a coisa estava preta. Eu assinara o aval sem comentar com a Naura, que quando soube virou o bicho. Então, a primeira coisa que eu queria fazer era ligar para ela e contar o acontecido. Liberei-me do Max e corri para a parte externa do fórum, pois o celular não pegava no interior do prédio.
Eufórico, caminhava rapidamente e contava, no celular, os detalhes daquela surpresa. Não consegui terminar o diálogo, pois, de repente, senti um puxão na minha mão. Um ladrão, um molequinho, levou meu celular! Corri atrás do garoto e berrava o “pega ladrão”. Na corrida, alcançou-me um rapaz negro, ofereceu-se para me ajudar e saiu em disparada na direção do ladrão.
Quando o meu companheiro de perseguição ao moleque passava na porta do Terminal Menezes Cortes saíram dois policiais da Policial Municipal, munidos de enormes cassetetes e mandaram ver no rapaz que me ajudava.
Eu, aos gritos, dizia que aquele não era o ladrão. Pouco adiantou, pois o rapaz levou diversas cacetadas e disparou para outro lado. Não tive nem oportunidade de agradecer e desculpar-me.
Logo veio uma outra pessoa segurando o moleque pelo colarinho. Deixei-o ir embora, peguei o celular e, dessa vez, contei duas histórias para a Naura.
E, com certeza, o negro que me ajudou não vai querer mais fazê-lo. O que é uma pena.
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