UM DIA DE SAMBISTA DA PESADA

Que ano não me lembro, mas faz tempo. Ali, onde hoje é o Shopping Iguatemi, era o local onde a Escola de Samba Vila Isabel fazia seus ensaios. Naquele tempo, a minha cunhada Neide era responsável pela confecção das fantasias da Ala das Baianas. Era a ala mais importante da Escola e, a Neide tinha, por isso, prestígio no ambiente.

Certa vez ela me convidou para assistir a um ensaio e eu, junto com a Naura, aceitamos e fomos. A minha cunhada mandou que eu me apresentasse na portaria, que eu teria entrada livre. Chegando disse meu nome e se apresentou um negro forte e grande, cheio de mensuras, abrindo passagem entre os foliões e me conduzindo. Quando vi estava dentro de um camarote especial, ao lado donde ficava o do bicheiro, certamente, o financiador da Escola. Mal sentamos e o contraventor nos deu um adeusinho de saudação, que correspondi sem entusiasmo.

Num ambiente agitado, cerveja, serpentinas, mulatas balançando o calipígio, num barulho ensurdecedor, que vinha da bateria, ali próxima, eu admirava a evolução da Porta-Bandeira dando aqueles rodopios e o Mestre-Sala agitando um lenço branco, curvando-se e ajoelhando, a todo instante e, dizem, protegendo a Porta-Bandeira. Meio sem jeito eu dava umas balançadas de corpo e a Naura, relembrando outros carnavais, participava, toda solta.

Lá pelas tantas, fiquei sozinho no camarote. Nessa hora, os bailarinos, com a bandeira, graça e molejo, vieram em minha direção, cheios de sorrisos, abanando o estandarte da escola. A Porta-Bandeira rodou na minha frente e avançou a bandeira para dentro do camarote. Surpreso, sem saber o que fazer, dei um sorriso amarelo e fiquei ali postado; os bailarinos deram mais uns rodopios e vieram novamente; desta vez a bandeira chegou a bater na minha cara e eu, outra vez, só sorriso amarelo. Vendo a minha situação, a Neide veio para próximo do camarote e fazendo gestos, beijando a própria mão, movia os lábios dizendo para beijar a bandeira. Caramba!

Quando a Porta-Estandarte voltou, aí eu já sabia, dei um beijo apressado na bandeira, ficando com aquela cada, sabe qual é?, aquela cara de imbecil de longa data...
Depois a Neide me falou que aquele gesto era uma homenagem distinguida às autoridades e figuras representativas.

Mas não terminou aí. Logo depois eu decidi ir ao banheiro, cabeça baixa, porque era reconhecido, pelo menos me parecia; dirigi-me ao local, que tinha uma fila - os sanitários estavam em obra - onde eu esperei até chegar a minha vez. Acho que o estado de nervo ainda me oprimia e eu não consegui liberar as cervejas tomadas, ficando um tempo, na frente da fila , cada vez mais tenso.

Não deu outra. Num instante um negão gritou:
- como é bacana, vai mijar ou não vai?
Não consegui!

Fui obrigado a ficar no camarote, preso, solitário com a minha continência, vendo a Naura saracotear no ritmo do samba e ainda me criticar pela minha falta de entusiasmo.

Nunca mais fui a nenhum ensaio.

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