UMA HISTÓRIA DE DRAMA, SANGUE E VINGANÇA
Eu estava no fundo da sala, tenho certeza. Primeiro dia
de aula, inibido e encolhido, doido para não ser visto. Mal sabia que era o início de um Drama, com Sangue e Vingança.
- Bom dia! Bom dia! Como foram as férias? E os mais assanhados gritavam, cheios
de alvoroços, respondendo à professora.
Fatos posteriores me fazem, ainda hoje, lembrar-me dela, que era baixinha, rechonchudinha
e genérica, pois dava mais de uma matéria. Começou a chamada e, na minha vez,
respondi: presente!
Era mil novecentos e antigamente; primeiro dia de aula, no 3º ano primário, assim se chamava, naqueles tempos. A professora baixinha, rechonchudinha e bandida, resolveu mudar a posição dos
alunos, arrumando todos na sala pela ordem nominal. Portanto, eu, Aurélio, na
primeira fila. E lá fui, sem alternativa, de pasta, lousa, cadernos e lápis para a
minha nova posição. Eram carteiras duplas, dois alunos por mesa. Do meu
lado sentou-se outro com a letra A, demos um jeito, e nos acomodamos. Terminada
a arrumação, a professora baixinha, rechonchudinha e beócia, sentou-se atrás da
mesa de mestre, sob uma plataforma que a deixava acima de todos. Fez o seu
introito explicando qual seria a matéria, o quê esperava de cada um dos
inocentes garotinhos e, no meu caso, sabia eu, do incompetente aluno.
E qual foi a primeira atividade da sala de aula? Com
certeza, na tentativa de aplicar novidades pedagógicas a mestra entendeu de
recapitular aulas de leitura e o livro seria o do ano passado. Livro que eu não
tinha, pois fizera o ano anterior em outra escola. Mas, esse não foi o problema,
pois a professora baixinha, rechonchudinha e imbecil mandou que eu pegasse o do
meu colega vizinho. E mandou que todos o abrissem na última página.
E aqui a história ganha contornos de Drama!
Era um texto com o diálogo entre o personagem Carlinhos e sua mãe. A professora
baixinha, rechonchudinha e incompetente achou que era uma ótima ideia dividir o
diálogo entre dois alunos.
- Aurélio você vai ler o que diz a mamãe e você fulano, vai ler a
parte do Carlinhos.
E, imediatamente, mandou-me iniciar a tarefa. Tenho certeza que o dia escureceu. Balbuciei sei lá o quê e petrifiquei. A professora
baixinha, rechonchudinha e decepcionante me cobrava.
- Fale Aurélio! Você é a mamãe. Fale! Leia!
Nervoso e incompetente não conseguia ler absolutamente
nada. Psicologia, naquela época, não fazia parte do cotidiano, muito menos para
aquela professora, baixinha, rechonchudinha e megera que me atormentou durante
um bom tempo exigindo o que eu, absolutamente, não podia fazer, melhor
dizendo, ler. Não sei quanto tempo durou, mas, pelas tantas, levantei-me e
sai desatinado, porta a fora. E, eis o Sangue!...
Era um colégio de padres salesianos, o Dom Bosco, em Campo Grande, MS. Ocupava
e ainda ocupa uma área enorme no centro da cidade. As salas eram arrumadas, uma
ao lado da outra, confrontando o pátio para os esportes, campo de futebol,
basquete, ficando essa área em um nível inferior, acessada por enormes
escadarias.
Mas, como dizia, abandonei a sala em disparada, morto de vergonha, desesperado
e cego. Tão cego que não vi o padre que estava posicionado no alto da escadaria
e dei-lhe um trompaço, o bastante para desequilibrá-lo, fazendo o rolar degraus
abaixo. Sangueira e gritos. O padre bateu com a cabeça e gritava tanto que, em
um instante, a curiosidade juntou gente. O quê foi? Como foi? E o pior, quem
foi?
- É o "mamãe" e veio o coro: -
Mamãe! Mamãe!
- Mamãe! Mamãe! Mamãe! Mamãe! A toda hora e em qualquer
lugar. Não me lembro de nenhum padre ter tentado diminuir aquele implacável Bullying
que, naquela época, tivesse que nome tivesse, era uma senhora sacanagem...
Armei-me então para a Vingança. As ruas da cidade estavam
recebendo pavimentação e pedras de brita sobravam no meu caminho. Enchi a
minha
pasta do colégio e, também, os bolsos com pedras e decidi lançá-las
contra cada um que gritasse “mamãe”. Repeti e repeti esse ato extremo de
vingança que, como estratégia, foi
uma decepção. Ainda trago na cabeça algumas cicatrizes das pedras que,
encurralado, recebia de volta da turma, que a cada vez me parecia
maior... Pois é, vingança é um prato que se come frio, ou com muita dor de cabeça.
Em tempo: os adjetivos lançados à professorinha são figuras de retórica, sem
pesares e sem mágoas. Pelo contrário, foi uma boa história... O padre deve ter
sarado e voltado para o seu posto de observação na testada da escadaria. A professorinha,
baixinha, rechonchudinha, sabidinha, deve ter encontrado outra maneira de
começar um novo ano.





Um comentário:
Não sei se se trata de caso verdadeiro ou ficção. De todo modo, é muito engraçado.
Max Albertp
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