MEU NOME É ARNÓBIO
De: Max Schlobach
Pois é. É isso mesmo. Arnóbio. Mais exatamente, Arnóbio Mustafá Neto. Este é o meu nome completo. Estranho, não é? Vocês não podem avaliar quantas vezes ele me causou constrangimentos ao longo de meus vinte e cinco anos. Agora já começo a superar o trauma. Depois vou relatar alguns episódios, que justificam o que estou dizendo.
Em primeiro lugar, vou explicar o porquê desse nome esquisito. Foi uma homenagem de meus pais a meu falecido avô, que se chamava Arnóbio. Pouco me lembro de meu avô, porque ele faleceu quando eu tinha por volta de três anos de idade. Mas, era uma pessoa especial – e isso é consenso na família: todo mundo até hoje comenta sua sabedoria e cultura, embora não tivesse formação universitária. É que ele lia muito, diziam. Ele aplicava com frequência termos fora do convencional, com muita propriedade, que até hoje são citados pelas pessoas que conviveram com ele.
Tudo bem. Vamos aceitar que ele fosse, de fato, uma pessoa especial, uma bela figura humana, muito culto, como todos diziam. Vamos concordar com a ideia de que ele merecia ser reverenciado. OK. Mas,. daí a prestar-lhe uma homenagem, dando a mim o seu nome, e eu ter de carregar esse pesado fardo, essa cruz, por toda a vida, não faz sentido.
Pensei, em certa época, até em mudar de nome pela via judicial. Mas aprendi na Faculdade de Direito onde estou me formando, que em nosso direito só é permitido postular a mudança de nome quando ele representa uma condição vergonhosa para o seu dono. Não é seguramente o meu caso, em que há apenas um aspecto antiestético
Vocês acreditam que até namoradas eu deixei de ganhar por causa desse nome? Pois isso aconteceu comigo. Vejam só. Na minha turma na Faculdade de Direito, havia uma garota que eu andava de olho. Bonitinha, elegante, inteligente, uma gracinha. Numa festinha, eu a chamei para dançar, me insinuei, e fui direto: perguntei se ela queria namorar comigo. Ela cortou logo o meu barato, dizendo, com franqueza, para minha surpresa, que não passava pela sua cabeça namorar um cara que se chamava ... Arnóbio. Como iria apresentar a suas amigas um namorado com esse nome? Elas iriam cair na sua pele. Era melhor nem iniciar o namoro, disse. Talvez houvesse um outro motivo, que preferiu não dizer, usando meu nome como pretexto. Claro que fiquei decepcionado, porque senti que, não fosse isso, o namoro talvez pudesse prosperar.
No meu tempo de colégio a coisa era pior. Nessa idade, a gente é mais sensível a brincadeiras e a garotada não perde tempo para uma gozação. Sente um prazer mórbido em pisar no coleguinha. E meu nome era frequentemente motivo para uma piadinha desagradável, que me incomodava. E, claro, eles não queriam saber se eu ia ficar chateado ou não. Até os professores entravam na dança. Durante a chamada, davam uma parada sintomática quando pronunciavam o meu nome, olhando para mim, valendo considerar que meu nome era sempre um dos primeiros a ser declinados, por começar pela letra A.
No clube que frequento, onde joguei futebol de salão, fui apelidado de “Nobinho”, por causa de minha baixa estatura. Tenho 1,65m. Até que gostei. Fiquei um pouco distante e livre desse meu horrível nome.
Agora, estou prestes a me formar na Faculdade. E fico refletindo o que os meus possíveis clientes vão pensar ao depararem na porta de meu futuro escritório com os dizeres: “Arnóbio Multafá Neto, Advogado” Soa, pelo menos, meio bizarro, certo?
No presente momento, estou tentando me desligar desse tipo de crise existencial.
Tenho que pensar positivamente, porque, afinal de contas, há tragédias piores – e até muito piores. Há pessoas que nascem com deficiências físicas, outras nascem com retardamento mental - e outros males piores. Eu, Graças a Deus, sou uma pessoa normal, com saúde e, pensando bem, acho que estou exagerando um pouco os meus problemas e esquecendo os pontos positivos de minha vida.
Tenho meus bons pais vivos, assim como meus dois irmãos. Tenho muitos amigos, que procuro preservar. Por que, então, tanto pessimismo?
A propósito, cabe rememorar aqui o romance satírico “Cândido”, ou o “Otimismo”, em que, afora o personagem do título, sobressai o Doutor Pangloss, mestre e amigo do iluminista Voltaire, personificação caricatural do pensamento filosófico de Gottfried Leibnitz. Esse notável alemão teria passado à história somente como um dos maiores matemáticos de todos os tempos, mas caiu nas presas de Voltaire ao concluir que “vivemos no melhor dos universos possíveis criados por um Deus”, isso a despeito dos males que assolam a humanidade, como terremotos, maremotos, enchentes, epidemias, etc. Podemos concluir, dizia o Dr. Pangloss, que “as coisas não podem ser de outra maneira, pois como tudo foi produzido para um determinado fim, tudo está necessariamente destinado ao melhor dos fins. Vejam que os narizes foram feitos para usar óculos, e por isso nós temos óculos; as pernas certamente foram criadas para as calças, e por isso temos calças; as pedras foram feitas para serem cortadas e erguer palácios, e por isso os reis moram em lindos palácios. Dizia, ainda, que o principal barão da província devia morar melhor que os outros – e como os porcos foram feitos para ser comidos, comemos toucinhos durante todo o ano, De modo que os que asseveram que tudo está bem disseram, em verdade, um disparate, porque deviam dizer mais ainda; “que tudo está no ápice da perfeição”.
Claro que todas essas reflexões e pensamentos são questionáveis e se aplicavam,inclusive, ao tempo em que foram divulgadas.
Mas, o que precisamos ter em mente é que devemos olhar o mundo com pensamentos otimistas e não assistir a tudo com a ótica pessimista de que tudo está errado.
Hoje, posso dizer que praticamente superei todos meus traumas de infância e de adolescência, olhando o mundo por um prisma melhor e aceitando problemas menores com naturalidade.
De qualquer maneira, meus pais poderiam ter pensado um pouco melhor, fazendo uma outra homenagem ao velho e bom vovô Arnóbio, que, diga-se de passagem, nenhuma culpa teve em tudo que aconteceu.

Nenhum comentário:
Postar um comentário